O Valor de Sentir-se Seguro: Rituais e Proteção em Tempos Difíceis

No nível mais básico, cada um de nós — independentemente de onde estamos e do que acontece ao nosso redor — precisa de proteção. Isso é algo que todos sentimos: o desejo de estar em segurança — tanto em nosso próprio corpo quanto em nossos pensamentos — apesar da imprevisibilidade do mundo. No dia a dia, trancamos portas, preparamos um chá quente ou recorremos aos amigos em momentos difíceis, muitas vezes sem nem pensar nisso. Sentir-se protegido nos permite dormir melhor, confiar um pouco mais e ter mais coragem de esperar pelo amanhã.

Quando essa necessidade não é atendida, o estresse e a ansiedade rapidamente ocupam seu lugar. A escuridão se torna mais tangível, cada rangido ou rajada de vento começa a parecer uma ameaça, e até mesmo a casa familiar se torna hostil. Isso é especialmente perceptível em situações extremas — por exemplo, durante um conflito militar — ou quando a pessoa enfrenta problemas sérios, como uma doença mental grave, por exemplo, a esquizofrenia. Nesses momentos, as apostas aumentam: não apenas para a pessoa vulnerável, mas também para todos ao seu redor. O medo se torna real e multifacetado. Imagine como é estar deitado na cama e pensar que cada passo no corredor se aproxima de você, ou passar a noite toda preocupado com um amigo, sabendo que tanto o mundo externo quanto o interno pressionam com a mesma intensidade.

O que pequenos gestos de proteção podem nos oferecer, especialmente em circunstâncias que parecem sem saída? A resposta está nas expressões simples e regulares de cuidado consigo mesmo e uns com os outros. Quando Anya confere a fechadura, quando compartilhamos um cobertor ou partimos o pão — fazemos mais do que apenas cumprir ações rotineiras. Esses rituais criam um limite, um sinal para nós e para os que estão próximos: mesmo em meio ao caos, podemos conquistar nosso pequeno refúgio de segurança. É como traçar uma linha na areia e declarar ao universo: “Este espaço é nosso. Aqui, ainda que por um momento, estamos protegidos.” E para pessoas com doenças mentais graves, tais rituais estáveis podem literalmente salvar vidas, criando o apoio tão necessário enquanto o mundo externo oscila.

A sociedade e o Estado também desempenham seu papel. As leis existem para proteger as pessoas de situações que podem agravar seu estado ou colocá-las em perigo — por exemplo, proibindo ou, no mínimo, questionando se vale a pena enviar uma pessoa com transtornos mentais graves para uma zona de combate. Não é apenas uma formalidade; é uma forma de compaixão em prática, uma maneira de a sociedade dizer: “Nós vemos você, e a sua saúde é importante para nós”. Esperar que alguém consiga entrar no caos já carregando um grande peso interno é como dar uma sanfona a um gato e exigir um solo impecável: não é justo, nem realista, nem trará nada de bom.

Quando a proteção se torna nossa prioridade comum, todos saem ganhando. Cuidar da segurança — física, mental, emocional — eleva a qualidade de vida. Reduz o estresse, ajuda as pessoas a suportar traumas e a construir uma sociedade um pouco mais gentil. Quando você sabe que sua saúde e seus direitos são valorizados, torna-se mais fácil apoiar os outros, construir sonhos e encontrar significado mesmo em meio às provações. O barulho da chaleira, o clique firme da fechadura ou o calor da mão de um amigo se tornam lembretes diários: criamos proteção uns para os outros tijolo por tijolo.

Mesmo que o vento uive lá fora e as janelas tremam, esses rituais tranquilos — a porta trancada, o cobertor compartilhado, um instante com uma caneca de chá quente — nos dão uma esperança frágil, mas real. Às vezes, a proteção mais forte é simplesmente saber que alguém cuidou de você a ponto de verificar a fechadura duas vezes ou deixar para você um pedaço maior de pão (mesmo que sob o pretexto de que “você precisa de carboidratos — passou a noite toda preocupado”). Afinal, a proteção não é feita apenas de paredes, leis e remédios, mas sempre de presença, de pequenos espaços onde podemos nos sentir seguros. E isso, queiramos ou não, já é um motivo de esperança.

O Valor de Sentir-se Seguro: Rituais e Proteção em Tempos Difíceis